"Tenho gostado do trabalho de Aguiar-Branco"

Esteve no início da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e prepara-se para sair por sua iniciativa, quando a FLAD faz 25 anos. Advogado, fundador do PSD, foi vice-primeiro-ministro no Governo do bloco central liderado por Mário Soares. Hoje, preside ao Congresso do PSD.
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Pedro Santana Lopes já tem as assinaturas necessárias para lhe pedir, enquanto presidente da Mesa do Congresso do PSD, a realização de um congresso extraordinário. Vai convocar o congresso ou não?

De um ponto de vista processual, se houver esse número de assinaturas, e parece que existe, temos de proceder à sua verificação e isso é o Conselho de Jurisdição que faz. Portanto, levará algum tempo - não sei quanto, também não será muito certamente - a verificar se estão correctas, o que presumo que sim. E depois pôr-se-á o problema, que não sou eu que decido, mas o Conselho Nacional, de quando convocar o congresso.

E qual a sua opinião sobre isso?

O problema é este: nós estamos numa situação em que há uma decisão do Conselho Nacional no sentido de haver eleições directas a serem marcadas logo que o Orçamento esteja votado. E a seguir terá de haver um congresso para eleger o resto…

E não ajudaria os militantes do PSD a estarem mais bem preparados para fazer uma escolha em eleições directas haver um congresso anterior em que se discutissem ideias?

E faríamos dois congressos? Do ponto de vista teórico a resposta é afirmativa, do ponto de vista prático porventura não será. Se o congresso discutisse predominantemente as questões importantes do País, seria magnífico.

Olhando para o panorama actual, temos Manuela Ferreira Leite, que não parece estar disponível para se recandidatar, e um candidato, Pedro Passos Coelho, que vai esperando pela sua hora. Falta encontrar um que represente o que normalmente se chama a ala cavaquista ou o eixo Lisboa-Porto? Ainda falta outro candidato a essas eleições?

Acho que vai haver, pelo menos num primeiro momento, mais candidatos do que os que já se perfilaram, o que é natural nas eleições do PSD.

É um palpite ou está na posse de informações nesse sentido?

Não, não tenho informações. É natural que isso aconteça, que haja outras sensibilidades que eventualmente tenham candidatos a apresentar e que ainda não o fizeram. De qualquer forma, seria importante alguém visto não apenas dentro do partido mas no País como tendo qualidades para candidato a primeiro-ministro.

Pedro Passos Coelho não tem, quanto a si, esse perfil?

Tenho simpatia pessoal por Pedro Passos Coelho. Não sei se é suficientemente conhecido e aceite no País nesse sentido. Veremos.

Com Marcelo Rebelo de Sousa, passa-se o contrário? Porque é que o partido não lhe deu as condições que pedia para se candidatar? Ele tem mediatismo mas não tem apoio no PSD?

Provavelmente porque o que Marcelo Rebelo de Sousa pensa que são as condições necessárias [revelam-se] muito exigentes para serem conseguidas, isto é, é provável que ele queira uma percentagem de pessoas muito elevada...

Deixe-me perguntar-lhe sobre mais um nome: o líder parlamentar José Pedro Aguiar-Branco. O que pensa de uma eventual candidatura dele e, já agora, tem gostado do seu trabalho à frente da bancada do PSD?

A segunda pergunta é muito mais simples: tenho gostado do trabalho dele, acho que tem sido um trabalho esforçado, inteligente, sem uma política de bota--abaixo, que é uma coisa um pouco disparatada no momento actual, em que há coisas boas e más propostas pelo PS.

Que balanço faz da presidência de Manuela Ferreira Leite? Acha que ainda tem condições para eventualmente se recandidatar?

Julgo que Manuela Ferreira Leite, pessoa com quem simpatizo muito (tenho muita estima, como é conhecido), apresenta grandes qualidades. Mas a campanha eleitoral não evidenciou que tivesse uma sensibilidade apurada, do ponto de vista político, para conquistar o eleitorado.

Iniciaram-se as conversações entre o Executivo e a oposição para aprovar o Orçamento do Estado. Está mais confiante face às dificuldades conhecidas?

Temos um problema extremamente grave, que é o do défice do Estado e depois o défice do País, das famílias e das empresas, e cujo financiamento pode tornar-se praticamente proibitivo e criar problemas muito difíceis no futuro.

Acha que seria necessário um acordo para a legislatura?

O entendimento tem de ser, pelo menos, para esta legislatura. É evidente que os partidos não devem renunciar nem à sua identidade nem aos seus programas e, portanto, estes acordos são sempre temporários! Não devem deixar de ser temporários, mas precisam de tempo para produzir resultados.

Mas está a ver a possibilidade desse acordo?

Se os partidos se preocuparem verdadeiramente com os problemas do País, essa necessidade terá de se impor.

Seria uma ironia que fosse o Presidente da República, que matou o bloco central, que estivesse agora a promovê-lo, a ajudar a que se concretizasse?

Se quiser pôr o problema assim, seria uma ironia. Mas, repare, quando Cavaco Silva criticou o bloco central, já tínhamos feito o tratado de adesão [à UE], porque foi o bloco central que o fez, apesar das críticas. Portanto, ele já via o problema numa situação em que era possível ultrapassar o bloco central, porque, se tivesse sido um ano antes, penso que não o faria ou então seria de uma irresponsabilidade total. Como creio que Cavaco Silva é uma pessoa responsável, não o teria feito.

As agências de rating, com especial destaque para a Moody's, têm ameaçado o País com novos cortes no rating português, tornando assim mais caro o dinheiro que Portugal compra lá fora. O Presidente da República tem razão quando diz que estamos perto de uma situação explosiva, onde já chegou a Grécia?

Acho que o Presidente tem razão ao alertar para esta situação. Os funcionários públicos ou os que trabalham em empresas que funcionam no âmbito dos serviços públicos não têm essa noção. Isto não é só o problema do desemprego. Todo o funcionamento da economia é posto em causa.

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